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João Pedro Oliveira é médico do Estrela há 27 anos →
Apenas recebe ajudas de custo →
Toma conta de tudo.
Perfil:→ João Pedro Cunha Gonçalves de Oliveira:Nome profissional: João Pedro Oliveira
Data de Nascimento: 16 de Dezembro de 1950
Naturalidade: Goa (português)
Profissão: Médico
Especialidade: Ortopedia
João Pedro Oliveira tinha acabado o curso de medicina há cinco anos. Em Santa Maria conheceu o enfermeiro Mário Veríssimo, que já então trabalhava no
Estrela, e sabendo que o médico morava a escassos cem metros do estádio desafiou a trabalhar para o clube. Aceitou, nesse mês de Novembro de 1981. José Gomes, nome pelo qual foi entretanto, baptizado o estádio, era o presidente. José Torres o treinador. Os jogadores eram amadores, treinavam em horário pós-laboral. No departamento clínico havia uma marquesa, uma máquina de ultra-sons, toalhas quentes, sacos de gelo e parafinas. Sem experiência no desporto, João Pedro Oliveira teve a humildade de seguir os concelhos do enfermeiro Mário Veríssimo. E assim começou uma história que dura há 27 anos.
É no hospital de S. José e no hospital militar que este médico ortopedista é remunerado. Sim, porque no
Estrela apenas ajudas de custo de há uns anos a esta parte. João Pedro Oliveira não gosta de abordar o assunto. Tem receio de parecer lamechas e não acha que tenha razões para se queixar. Mas então o que o faz correr?
“O amor à camisola. Gosto mesmo muito do
Estrela, das pessoas, do estádio, de tudo. Além de que a medicina desportiva é mais gratificante para um médico. Porque tratamos pessoas que querem de facto recuperar o mais depressa possível. Somos dois a puxar muito para o mesmo lado e a relação médico/paciente é de absoluta confiança”, frisa.
Tensão com treinadores.
Em 27 anos muito mudou. Os meios técnicos, a aposta na prevenção de lesões, os conhecimentos. Quase todos os anos vai ao estrangeiro, a expensas próprias, para congressos de medicina desportiva, e até a relação com os treinadores, nem sempre pacífica no passado, melhorou muito.
“Vivi momentos de tensão com alguns, em especial os da velha guarda, quando insisti que nem todos os jogadores devem fazer o mesmo tipo de trabalho físico, que dois jogadores de posições ou idades diferentes necessitam de uma abordagem específica”, lembra. Além disso, “o papel do médico é proteger o paciente, ou seja, o jogador, não é servir o treinador apressando as coisas ou sendo pouco rigoroso”.
Cenários que mudaram com os tempo e a chegada de novos treinadores. Tirando alguns, “as relações com as pessoas que passaram pelo
Estrela sempre foram as melhores”, salientando, dos que já saíram, os ex-dirigentes José Gomes, Marques Pedrosa, Pedro Santos e o ainda enfermeiro
Estrelista Mário Veríssimo.
Pau para toda a obra.Vários médicos já passaram pelo
Estrela. Houve uma fase em que ainda tentou formar um sucessor. Mas todos acabaram por ir saindo, parte deles por não receber. Entre todos, uma palavra especial para Bento Leitão, que esteve na Amadora mais de uma década. João Pedro Oliveira ajudou na formação de alguém que conhecia desde a escola primária. O Benfica foi buscá-lo e foi com pena, e orgulho, que João Pedro Oliveira o viu partir.
Hoje está só no clube (outros médicos colaboram generosamente nas suas especialidades) e é responsável pelo futebol profissional, formação (onde elogia a inestimável colaboração dos massagistas Horta de Brito e Amadeu) e modalidades.
Nunca teve fins-de-semana, a mulher e os três filhos acabaram também por ser sacrificados. Aos 58 anos é cedo para pensar em deixar o clube?
“Eu gosto mesmo muito do
Estrela”, desabafa…É preciso dizer mais alguma coisa?
Curiosidades:Sempre mudo no banco: → Durante um jogo, um lateral do
Estrela ganhou a bola e tinha o corredor à mercê. João Pedro Oliveira gritou: sobe, sobe... O treinador era Joaquim Meirim, que disse, rispido: "Amanhã sou eu que dou as injecções...". O médico engoliu em seco e passou a estar mudo e estático no banco. Nem os golos celebra. O que começou a ser protesto, hoje é "uma fé".
Contra a "fita" dos jogadores: → Se há coisas que lhe mexe com os nervos são as simulações de lesões, em especial nos minutos finais e quando a equipa está a ganhar. "Irrita-me chegar ao pé do jogador e ele piscar-me o olho a dizer que está a doer... É um desprestígio para um médico pactuar com isso. Depois, obrugam-me a correr que nem um desalmado e, depois, é tudo fita? Sou o primeiro a dizer: levanta.te, deixa-te disso, nem espero que o árbitro diga..."
Um susto de nome Cleiton: → Há quase dois anos o jogador Cleiton deixou a Reboleira com dores de cabeça. Perdeu a fala e a mobilidade dos membros inferiores quando chegou a casa. Um acidente cardio-vascular fez temer o final de carreira. Felizmente recuperou, mas João Pedro Oliveira lembra este como "o caso mais delicado" em 27 anos. "Os jogadores são a minha prioridade. Antes de funcionário do
Estrela sou médico deles."
P.S: Conto em breve, poder igualmente transcrever aqui no
Blog a entrevista de Augusto Santos, mais conhecido no mundo
Tricolor por Cuca, também ao jornal ABola do passado sábado.